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Barra Crachás

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12 de setembro de 2015

RELATOS DA GUINÉ III


"Sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros (portugueses) vitoriosos ou mortos". A frase de Oliveira Salazar, proferida em Dezembro de 1961, cumpriu-se pela metade.




Muitos morreram no Ultramar e os que regressaram nunca se sentiram vitoriosos. 
Tinham 20 anos e foram defender solo português em países que não conheciam, mas que eram o Portugal de além-mar. Nos anos 60 e até 1974, a guerra era um destino certo para os jovens portugueses. Ninguém ficava surpreendido ao ser chamado para combater em nome da pátria nos territórios ultramarinos. Muitos não regressaram, outros regressaram para um novo regime que os criticava e ostracizava. O mesmo País que os tinha empurrado para a frente de batalha, apontava agora o dedo acusador. Esta foi a face mais dolorosa e marcante da guerra.
A falta de apoio e a incompreensão irracional dos homens saídos da 'Revolução dos Cravos'. Os jovens que regressaram da guerra colonial não só não tinham apoio, como eram julgados por terem feito aquilo que o País os tinha mandado fazer.
A mesma falta de apoio que sentiram os militares depois de 24 meses em África, foi-lhes dito para regressarem a casa. À casa onde, ainda hoje, são assaltados por pesadelos e por noites em branco e ainda hoje não aceitam que, depois de os terem mandado combater, tivessem feito a descolonização como fizeram: "deram tudo de mão beijada".
Os Pára-quedistas treinados para combater numa tropa de elite, onde se exigia controlo e domínio, devemos de reconhecer que a guerra afectou todos os que passaram por ela. Mas o treino recebido acabou, de alguma forma, por ter um efeito positivo e por ser uma forma eficaz de combater o 'stress' no campo de batalha e os traumas em tempo de paz. 
"Fomos uma pessoa e regressamos outra, com uma maior maturidade, independência e com maior autonomia. Mas é evidente que há fantasmas que temos de controlar e de manter em segundo plano".
Os fantasmas são os amigos e camaradas que perdemos, em terras de África. "Costumo dizer que estivemos do outro lado, na linha ténue que separava a vida da morte. Houve alturas em que nos sentimos do outro lado e foi interessante regressar ao lado de cá. Mas, enquanto estávamos no fio da navalha, é evidente que as situações não eram fáceis e tínhamos de resistir. Os fantasmas a que me refiro são eventualmente situações dramáticas de combate debaixo de fogo em que houve amigos que morreram e tivemos depois que resolver a situação".
A verdade é que soubemos colocar esses fantasmas acima do medo, porque o medo, ao fim de algum tempo, era vencido. A guerra era, então, encarada com uma certa insensibilidade, algo que tinha de ser feito, mesmo que as razões não fossem claras.
Como refere Joaquim Vieira, na colecção 'Portugal Século XX', a floresta africana era destino obrigatório para os jovens portugueses, "que entram meninos na guerra e saem de lá homens". Um crescimento que se fez à custa de mortos, de estropiados, de traumas psicológicos que persistem após o regresso. E toda esta situação é mais dramática "sobretudo quando se perde de vista a intenção dos combates. Luta-se para quê? Para conservar o Império? Para acabar com a guerrilha? Para instaurar a paz? Para negociar uma transição? Para preparar a autodeterminação? Impossíveis uns objectivos, inaceitáveis outros, a guerra perde sentido. Mas os rapazes continuaram a lutar sem questionarem a sua sina."
Este cenário, descrito por Joaquim Vieira, não está muito longe da verdade daquilo que foi, antes e depois, a Guerra Colonial e a história de uma geração enviada para combater.
A situação, agravou-se substancialmente em 1973, na Guiné quando as ofensivas do PAIGC a partir do Senegal se consubstanciavam-se em longos meses de violentos combates. O PAIGC adoptava então a estratégia de estabelecer um cerco a um acampamento, levando as tropas à exaustão e tomando depois o aquartelamento de assalto e nessa altura intervinham os Boinas Verdes
No sul, na fronteira com a Guiné Conacri, a estratégia tinha-se saldado em sucesso. A norte, desenrolaram-se "combates violentíssimos", mas as tropas portuguesas saíram vitoriosas depois de terem conseguido destruir algumas bases do PAIGC que estavam no Senegal.
Só assim se conseguiu aliviar a frente norte. Ouve que entrar no Senegal o que deu uma série de confusões com a ONU, porque o Senegal era um País supostamente neutro, mas permitia a movimentação, aquartelamento e instalação de bases do PAIGC".
Os militares incluindo os pára-quedistas, lutaram até a revolução de Abril. Lutaram até à exaustão. E ambos os lados da barricada estavam tão saturados que, na Guiné, a guerra acabou logo que o golpe aconteceu, em Lisboa, a 25 de Abril de 1974.
Mas isso foi muito antes. Antes de uma geração ter como destino certo a África portuguesa. "Aos 18 já não podíamos sair do País e aos 20 podíamos avançar a qualquer altura".
Foi esta geração que aprendeu em África a não pensar no dia seguinte, a não fazer planos. Muitos de nós sabíamos que era assim e, por isso, impedia que os soldados tivessem em sua posse um calendário onde pudessem marcar os dias. Essa marcação diária poderia ser um golpe psicológico tremendo.
Hoje, ao olhar para trás, para além da guerra, aponta dois episódios pós-guerra, como aqueles que mais o chocaram e marcaram.
O primeiro foi a forma apressada como se fez a descolonização. "Foi um desastre que aconteceu em Portugal por impreparação e por precipitação dos políticos da altura. Na Guiné, os impactos não foram muitos. Mas ainda nos lembramos dos retornados de Angola e Moçambique."
A outra situação que nos marcou foi a tentativa do poder político em Portugal esquecer e remeter ao ostracismo os ex-combatentes. "Só agora é que começam a valorizar e a falar da nossa presença em África. Nós estivemos lá a defender o solo nacional. Fomos num regime e regressamos num outro, mas só agora começam a entender que a nossa presença em África era legítima. Por exemplo, estávamos na Guiné há 500 anos. Tínhamos alguma legitimidade para defender a bandeira e o solo nacional".
Apesar desta verdade, deveremos recordar-nos que muitos de nós  quando regressaram a Portugal, foram tratados como fascínoras, apesar de não terem feito mais do que partir para África ao serviço do Estado português. Mas, entretanto, aconteceu uma revolução e o País saiu de um extremo para outro extremo. "Foi o descontrolo absoluto e foi nesse extremo que se fez a descolonização de forma desastrosa".
Muitos de nós, que em risco da própria vida, defendemos aquilo que nos diziam ser nosso, que combatemos em África,  sentimos, então e agora, uma sensação de vazio e de frustração.
Hoje ainda alguns terão pesadelos com o cenário de guerra, mas controla a situação. Foi algo que passou.
Durante a viagem a caminho do seu destino em África ainda havia uma certa inocência. "Éramos crianças, nem sabíamos o que era a guerra. Durante a viagem tínhamos uns trocos e havia cerveja". O pior foi quando, já em qualquer uma das colónias, começaram a aparecer os primeiros mortos. A partir daí a inocência já não teve redenção.
Acabada a guerra tínhamos tanto de nosso, como tínhamos quando embarcamos para África. Recordo-me de me despedir das pessoas e de estas me darem algum dinheiro. Foi isso que levamos e levamos também a incerteza de um regresso. Os 24 meses que se seguiram não foram fáceis. "Fomos vendo os colegas a morrer e a pensar quando seria a nossa vez".
No percurso criavam-se amizades mais sólidas que o futuro. Na guerra, os camaradas são irmãos.
Cada dia que passava era uma vitória. A cada anoitecer e amanhecer agradeciam a Deus a sobrevivência.
Riscava os dias que passavam na parede e, por isso, os últimos foram os piores. Até o fim, a morte era uma possibilidade.
Enquanto a guerra decorria, tentávamos sobreviver às minas e às emboscadas,  tentávamos sobretudo resistir ao medo e à incerteza.
Para nos sentirmos mais próximo da vida que nos fugia, arranjávamos uma madrinha de guerra.
As madrinhas de guerra eram confidentes, uma forma de falar com alguém que estava do lado de fora de toda aquela loucura.
Mesmo em guerra, a vida e o amor acabavam por seguir o seu curso. Nessas cartas, alguns "começavam a meter o pezinho e pediam as raparigas em namoro".
Trocavam fotos e confidências. "Era como agora com a Internet, só que na altura era através dos aerogramas que o Governo nos mandava. Eram chamados por nós de 'bate-estradas'. Um envelope que se dobrava sobre si mesmo, que ia meio aberto, mas que chegava ao seu destino". Alguns até tinham truques para que o texto não fosse lido pelos mais curiosos.
Não foi fácil a guerra, todos os dias sentíamos que tínhamos a cabeça a prémio. As emboscadas eram o que mais se temia. Podiam acontecer a qualquer altura.
No perigo eminente, havia uma regra que não podia ser quebrada: era absolutamente proibido abandonar a arma mesmo que por alguns segundos.
"A arma ia para todo o lado connosco, até para fazer as necessidades. A mulher nunca anda ao pé da gente tanto quanto a arma nos acompanhava durante as operações".
Por isso, ainda hoje os sobreviventes, quando se encontram, nos habituais convívios "fazem uma festa".

"HONRA-SE A PÁTRIA DE TAL GENTE"

© JC